Câncer de Pênis

Câncer de Pênis

O Câncer de pênis é uma doença agressiva com ampla variação na distribuição geográfica entre países de condições socioeconômica distintas. Embora rara nos países europeus e américa do norte, é uma condição frequente em muitos países africanos, sul americanos e asiáticos. (1)

A Índia é a nação com a mais alta incidência mundial da doença (3.32/100.000 habitantes). No outro extremo estão os Judeus nascidos em Israel, com taxas próximas a zero. Nos Estados Unidos, a incidência é de 0.2/100.000 habitantes e em 2018, estima­se 1.570 casos novos, com cerca de 310 mortes. Nos países europeus, o câncer de pênis correspondeu a menos de 0.5% de todos os casos de câncer, em 2017. (2)

No Brasil, estima-se que a incidência do câncer de pênis varie de 2.9 – 6.8/100.000 habitantes, sendo as regiões norte e nordeste responsáveis pelo maior número de casos. Estatísticas recentes indicam que o câncer de pênis foi responsável por 2.1% dos cânceres em homens (5.7% na Região Nordeste, 5.3% na Norte, 3.8% na Centro­oeste, 1.4% na Sudeste e 1.2% na Região Sul). Esses dados estão diretamente relacionados aos baixos níveis socioeconômicos das áreas com maior incidência. (1,3–5)

De acordo com dados do Ministérios da Saúde Brasileiro, estima­se anualmente 850 cirurgias para o tratamento do câncer de pênis e aproximadamente 50% destes procedimentos são executados nas regiões norte e nordeste do país.(4)

É provável que a maioria destes homens retardam a procura por atendimento médico devido ao medo ou dificuldade de acesso à serviços especializados.

O carcinoma de células escamosas (CEC) é o tipo de câncer de pênis mais frequente. Em fases iniciais o tratamento é a cirurgia para a remoção da lesão. Em contrapartida, nas fases mais avançadas da doença (gânglios na virilha contaminados pela doença ou mesmo metástases em outros órgãos), a chance de cura é reduzida e o tratamento passa a ser com quimioterapia e controle de sintomas.(6–9)

A principal via de disseminação é através dos vasos linfáticos, mas a doença também pode ganhar a circulação sanguínea.

O câncer de pênis afeta mais frequentemente os homens entre 50 a 70 anos. Indivíduos mais jovens também podem ser acometidos. Cerca de 19% dos casos tem menos de 40 anos e 7% têm menos de 30 anos.

De maneira geral o tratamento do câncer de pênis é baseado em 3 princípios: 1­ preservação do órgão, 2­ manutenção da função sexual, 3­ qualidade de vida.

FATORES DE RISCO

Há uma forte associação entre a presença do prepúcio e o surgimento do câncer de pênis. A circuncisão é fator de proteção quando feita na primeira infância. Estudos na literatura médica indicam que homens circuncidados logo após o nascimento tem uma pequena probabilidade de manifestarem a doença na fase adulta.(10,11)

Além disso Há outras evidências científicas que indicam uma menor probabilidade de contrair HPV nos homens circuncidados na infância.
A causa desse fenômeno protetor ainda é desconhecida e é objeto de múltiplos estudos científicos. Acredita­se que a remoção do prepúcio leva ao desenvolvimento de uma camada protetora mais espessa na glande e corpo do pênis, o que dificultaria a contaminação pelo virus.(12)

Outros fatores etiológicos conhecidos são: higiene genital precária, presença de fimose, infecção viral por HPV, exposição à radiação UV, tabagismo, balanite obliterante e líquen crônico.
Condição socioeconômica também é uma variável associada à incidência aumentada de câncer de pênis. O risco é 43% maior entre homens residentes em países com mais de 20% da população abaixo da linha da pobreza, comparados àqueles países com menos de 10% dos homens abaixo desta linha.(10)

Além disso, há relatos de associação familiar com o câncer de pênis. Alguns estudos científicos demonstraram risco de 2 a 17X maior de apresentar a doença em filhos de portadores de câncer de pênis, entretanto nenhuma alteração genética foi identificada como responsável até o momento.

RAÇA:

Há uma quantidade de dados limitada sobre incidência do câncer de pênis entre grupos raciais. Alguns estudos científicos demonstraram que a probabilidade de pacientes negros desenvolverem uma forma mais agressiva de câncer de pênis é maior do que em homens brancos. Entretanto, os estudos não abordam fatores socioeconômicos que poderiam influenciar tais indicadores, como acesso à assistência médica precoce.

Dados da literatura brasileira demonstraram que dos pacientes com câncer de pênis, 75% eram brancos, 23% negros e 2% orientais. Noventa por cento dos casos são oriundos do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso sugere que o câncer de pênis tende a afetar os mais pobres, não­circuncidados e com hábitos precários de higiene. A raça não parece ser um fator de risco determinante para a sua ocorrência.(13)

FIMOSE:

O fator de risco mais importante para o surgimento do câncer de pênis é a presença de fimose. Dentre aqueles com fimose ou excesso de pele prepucial, o baixo nível socioeconômico e a higiene pessoal precária são os fatores de risco mais importantes.

Dos pacientes com câncer de pênis, 25% tem antecedente de fimose e 60% tem fimose no momento do diagnóstico da doença.
Estudos na literatura médica sugerem que a circuncisão no período neonatal está associada à diminuição no risco do câncer de pênis, assim como demonstram que a fimose é mais comum nos homens com a doença (35%) em comparação aos homens que nunca manifestaram o câncer de pênis.(14)

CIRCUNCISÃO:

A infecção pelo vírus HPV peniano é baixa em homens circuncidados. Naqueles não circuncidados, o risco de câncer de pênis é 3 vezes maior do que nos circuncidados ao nascimento.

Em crianças circuncidadas logo após o nascimento a incidência relatada de câncer de pênis é nula. Se a circuncisão é feita entre os 3 e 12 anos, a incidência é 0.15%. Do contrário, a incidência de câncer de pênis pode atingir 3.1% em homens não circuncidados. Isso sugere que a circuncisão previne a ocorrência de câncer de pênis apenas se realizada no período de alguns meses após o nascimento. Pacientes circuncidados na fase adulta (mais de 87%) tendem a desenvolver tumores de baixa agressividade.(15–17)

Dados da literatura médica demonstraram uma incidência diminuída de câncer de pênis na Escandinávia, país que tem uma baixa incidência de circuncisões. Na Dinamarca, a taxa de circuncisão é de apenas 1.6% da população. Mesmo assim, incidência de câncer de pênis neste País diminuiu de 1.15 por 100.000 homens para 0.82 por 1000.00 homens. Esse fato foi atribuído à melhora da higiene pessoal.(1)

ESMEGMA

O efeito protetor da circuncisão se deve provavelmente ao não acúmulo de esmegma, que se mostrou como uma substância que pode induzir o surgimento do câncer em experiências com animais. Contudo, o processo específico ainda precisa ser elucidado.

DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS

Um fator de risco comum associado ao câncer de pênis inclui a história clínica de doenças sexualmente transmissíveis (DST), como gonorreia, clamídia e sífilis. Contudo, não há evidência de causalidade entre essas infecções e o câncer de pênis.(10)

TABACO

O tabagismo é um fator de risco importante e está associado à maioria dos casos de câncer de pênis. Além disso, há relatos na literatura que homens tabagistas têm maior risco de manifestar formas agressivas da doença.

BALANITES (Inflamação) e TRAUMA GENITAL

A associação entre micro­traumas genitais e balanite crônica se relaciona a um risco aumentado de câncer de pênis. Após ajuste para história de lesões avermelhadas e úlceras genitais, há relatos na literatura médica que demonstram que pequenas abrasões e microfissuras da pele do pênis estão associados a um risco 4x maior de desenvolver câncer de pênis em relação aos que não apresentavam tais antecedentes.(18)

ÚLCERAS GENITAIS

Lesões ulceradas benignas, como o cancro mole, úlcera sifilítica e donovanose, figuram como os principais diagnósticos que podem ser confundidos com o câncer de pênis nos estágios iniciais. Assim, todo homem que apresenta lesão ulcerada por mais de 4 semanas ou que não responde ao tratamento inicial deve ser investigada. (18)

HPV

A associação entre o Papiloma Vírus Humano (HPV) e o câncer de pênis varia na literatura mundial (10 a 80%). Essa disparidade pode ser explicada pela variedade de métodos utilizados na detecção do vírus (PCR; hibridização in situ; Southern blot) ou o tipo de técnica utilizada (congelação; a fresco ou parafina). Contudo, o exato papel do HPV na origem da doença ainda não foi elucidada por completo até o momento.
No Brasil, o genoma do vírus é encontrado em até 30% dos casos de de câncer de pênis. Entretanto, há evidências na literatura médica que demonstram uma incidência maior do HPV (75%) em pacientes com a forma invasiva e mais agressiva da doença.
Diversas séries relatam uma alta incidência do HPV de alto risco (16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68) com o câncer de pênis. Contudo, a associação entre o HPV 16 e o câncer de pênis parece ser mais frequente (30 a 50% dos casos).(5,12)

ASPECTOS CLÍNICOS E DIAGNÓSTICO

Aproximadamente 2/3 dos casos de câncer de pênis possuem doença localizada ao diagnóstico, e a principal queixa é a de presença de lesão peniana visível ou palpável. Essas lesões podem ser nodulares, ulceradas, ou de aspecto inflamatório. Deve­se atentar para lesões ocultas pela no prepúcio, muito comuns em nosso meio. Os principais sintomas relacionados às lesões do câncer de pênis são dor, coceira, odor fétido, sangramento e queixas urinárias.
O exame físico da área suspeita pode definir a localização do tumor, tamanho da lesão e o grau de profundidade de invasão na estrutura do pênis (corpos cavernosos, esponjosos, uretra e órgãos ao redor). Essas informações são de fundamental importância no planejamento do tratamento.

A localização mais frequente do câncer de pênis é a glande (50%); prepúcio (20%); e de ambos, glande e prepúcio (30%). A a lesão pode ser em forma de uma verruga (38%), úlcera (52%) ou nódulo (10%).
Deve­se estar atento aos gânglios na região da virilha e, se forem palpáveis, é importante definir o seu diâmetro, lateralidade, consistência e mobilidade. Além disso, o inchaço (edema) do membro inferior/escroto e presença de infiltração/perfuração da pele são achados importantes.(10)

Cerca de 50% dos gânglios detectados pela palpação inicial não são relacionados ao tumor no pênis, sendo importante reavaliar alguma alteração a cada retorno em consulta.

Exames como ultrassonografia (US) ou ressonância nuclear magnética (RNM) podem ser utilizados de forma complementar para definir a profundidade de infiltração, porém diagnóstico definitivo é feito pela biópsia ou a própria remoção da lesão suspeita.

  1. Siegel RL, Miller KD, Jemal A. Cancer statistics, 2018: Cancer Statistics, 2018. CA Cancer J Clin. janeiro de 2018;68(1):7–30.
  2. Wein AJ, Kavoussi LR, Partin AW, Peters CA, organizadores. Campbell-Walsh urology. Eleventh edition. Philadelphia, PA: Elsevier; 2016.
  3. Sudenga SL, Torres BN, Fulp WJ, Silva R, Villa LL, Lazcano-Ponce E, et al. Country-Specific HPV-related Genital Disease Among Men Residing in Brazil, Mexico, and the United States: The HIM Study. Int J Cancer. 15 de janeiro de 2017;140(2):337–45.
  4. Favorito LA, Nardi AC, Ronalsa M, Zequi SC, Sampaio FJ, Glina S. Epidemiologic study on penile cancer in Brazil. Int Braz J Urol. 2008;34(5):587–593.
  5. Scheiner MA, Campos MM, Ornellas AA, Chin EW, Ornellas MH, Andrada-Serpa MJ. Human papillomavirus and penile cancers in Rio de Janeiro, Brazil: HPV typing and clinical features. Int Braz J Urol. 2008;34(4):467–476.
  6. Abad-Licham M, Silva E, Yan E, Álvarez H, Agreda F, Pow-Sang M. Endoscopic inguinal lymphadenectomy in penile cancer: case report and literature review. ecancermedicalscience [Internet]. 5 de outubro de 2015 [citado 20 de janeiro de 2018];9.Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4631570/
  7. Li Z, Yao K, Chen P, Zou Z, Qin Z-K, Liu Z-W, et al. Disease-specific survival after radical lymphadenectomy for penile cancer: Prediction by lymph node count and density11This work was supported by the Science and Technology Foundation of the Guangdong Province (2012B031800079 to H. Han).2Zai-shang Li and Kai Yao contributed equally to this article. Urol Oncol Semin Orig Investig. agosto de 2014;32(6):893–900.
  8. Kharadjian TB, Matin SF, Pettaway CA. Early Experience of Robotic-Assisted Inguinal Lymphadenectomy: Review of Surgical Outcomes Relative to Alternative Approaches. Curr Urol Rep [Internet]. junho de 2014 [citado 20 de janeiro de 2018];15(6). Disponível em: http://link.springer.com/10.1007/s11934-014-0412-7
  9. Hu B, Djaladat H. Lymphadenectomy for testicular, penile, upper tract urothelial and urethral cancers: Curr Opin Urol. março de 2015;25(2):129–35.
  10. Douglawi A, Masterson TA. Updates on the epidemiology and risk factors for penile cancer. Transl Androl Urol. outubro de 2017;6(5):785–90.
  11. Risk Factors and Prevalence of Penile Cancer. West Indian Med J. outubro de 2014;63(6):559–60.
  12. Rodney S, Muneer A. HPV and Penile Cancer: Perspectives on the Future Management of HPV-Positive Disease. Oncol Williston Park N. março de 2016;30(3):250–2.
  13. INCA - CÂNCER - Tipo - Pênis - Detecção precoce [Internet]. [citado 20 de janeiro de 2018]. Disponível em: http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/penis/deteccao_precoce
  14. Stratton KL, Culkin DJ. A Contemporary Review of HPV and Penile Cancer. Oncol Williston Park N. março de 2016;30(3):245–9.
  15. Ornellas AA, Ornellas P. Should routine neonatal circumcision be a police to prevent penile cancer? | Opinion: Yes. Int Braz J Urol Off J Braz Soc Urol. fevereiro de 2017;43(1):7–9.
  16. Shah VS, Jung NL, Lee DK, Nepple KG. Does Routine Pathology Analysis of Adult Circumcision Tissue Identify Penile Cancer? Urology. junho de 2015;85(6):1431–4.
  17. Larke NL, Thomas SL, dos Santos Silva I, Weiss HA. Male circumcision and penile cancer: a systematic review and meta-analysis. Cancer Causes Control. agosto de 2011;22(8):1097–110.
  18. Kasuga J, Kawahara T, Takamoto D, Fukui S, Tokita T, Tadenuma T, et al. Increased neutrophil-to-lymphocyte ratio is associated with disease-specific mortality in patients with penile cancer. BMC Cancer [Internet]. 7 de julho de 2016 [citado 20 de janeiro de 2018];16. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4936117/
  • Dr. Bruno Benigno

    Dr. Bruno
    Benigno

    Urologia e Oncologia

    CRM 126.265

    • Titular do Núcleo de Urologia do AC Camargo Cancer Center -SP
    • Urologista do Centro de Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz - SP
    • Fellowship em Uro-Oncologia, Laparoscopia e Cirurgia Robótica pelo A.C. Camargo Cancer Center -SP
    • Mestre em Oncologia - FAP
    • Professor de Cirurgia Minimamente Invasiva do Programa de Fellowship do AC Camargo Cancer Center
    • Sócio fundador da Clínica Uro Onco
    • Sociedades internacionais: AUA; CAU; EAU
    Mais Informações
Veja os serviços prestados

Convênios

  • Advance
  • Allianz Saúde
  • Ameplan
  • Amil
  • Apeoesp
  • Bradesco Saúde
  • Caixa Seguros
  • Care Plus
  • Cassi
  • Cetesb
  • Classes Laboriosas
  • Dix
  • Economus
  • Fundação CESP
  • Gama Saúde
  • Grupo Saúde Bresser
  • Hapvida
  • Intermedica
  • Itau
  • Life Empresarial
  • Mapfre
  • Marítima Saúde
  • MedService
  • Metrus
  • Notredame
  • Omint Saúde
  • Ônix
  • Portomed
  • Porto Seguro
  • Sabesprev
  • Santamalia
  • Saúde Secular
  • SP Trans
  • Sul America Saúde
  • Unafisco
  • Unimed
  • Unimed Rio
  • Unimed Seguros