Vergonha? Pum era normal na antiguidade, mas dá para diminuir o mau cheiro

Por Fernando Cymbaluk

Artigo publicado originalmente no site do UOL em 12/01/2016 com a participação do Dr. Marcelo Pedro, diretor da CEDIG.

Pum

A rejeição a esse muitas vezes barulhento e mau cheiroso impulso orgânico não é tão velha assim. A "repulsa ao pum" surge com outros hábitos de higiene adotados com o crescimento das cidades no século 19. Como mostra o historiador Alain Corbin na obra "História da Vida Privada - volume 4" (Cia das Letras), em uma época anterior, em que predominavam as comunidades rurais, o pum era sinal de "bom desempenho das funções naturais". A higiene íntima, fruto do "processo civilizatório", é que acentua "o desejo de manter à distância o dejeto orgânico, que lembra a animalidade, o pecado e a morte", como diz o autor.

Se para você pum é um problema, saiba que ele não é tão simples. "O ser humano elimina até 1,5 litros de gases pelo ânus por dia. Dá uma média de 10 a 20 flatos", diz Marcelo da Silva Pedro, médico-cirurgião do aparelho digestivo e 2º secretário do departamento de gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina. As queixas sobre excesso de pum, que segundo o médico são muito comuns, só não são maiores porque a maioria dos gases escapam despercebidamente.

Quase toda a culpa é das bactérias que vivem em nosso intestino. É a fermentação bacteriana do alimento não digerido que produz gases. Eles também podem ser fruto da ingestão de ar. A fabricação dos chamados flatos no nosso intestino também pode ter características genéticas e passar de pai para filho. "Pais passam bactérias para os filhos no convívio. O seu pum vai ser parecido com o do seu pai por isso", diz o gastroenterologista e professor do gastrocentro da Unicamp, Ademar Yamanaka.

O pum, via de regra, é formado por nitrogênio, oxigênio, hidrogênio, metano e gás carbônico, todos gases sem cheiro, como explica Silva Pedro. Mas e o cheiro? Ele vem da substância que representa 1% da composição do gás, também formada na metabolização dos alimentos: o enxofre. Parar de soltar pum não dá. Também não adianta segurar, ele vai sair uma hora -- e fazer doer sua barriga enquanto você segura.

O que é possível é aliviar o excesso e reduzir o odor. As dicas são bem simples. "Gases são fruto do que a gente come ou bebe", diz Yamanaka. A dica é: siga a comida (e a forma que você come).

Você come muito...

... e come rápido, e come falando muito. Soltará mais pum. Tudo o que dificulta a digestão propicia o aumento da fermentação. "Quanto mais facilitado é o processo, menor é a formação de gases", diz Silva Pedro. Comer rápido e em grande quantidade atrapalha. Já o ar que ingerimos quando falamos sairá na forma de arroto ou pum. Segundo o médico, o ideal é "mastigar 15 vezes cada garfada".

Você come carne...

... então seu pum pode ficar mais fedido. É a carne, principalmente a de porco, que deixa o pum com cheiro forte, devido à formação de enxofre na metabolização dos alimentos no estômago. "O coco de animais herbívoros, como cavalo, vaca, não fede", exemplifica Yamanaka. Uma pessoa que tenha uma dieta vegetariana terá flatos com menos odor.

Você come grãos...

... o feijão, o grão de bico, o milho, todos provocam gases intestinais. Para quem acha que está com excesso de flatos, pode reduzir o consumo de alimentos que fermentam mais facilmente no intestino. Além dos grãos, a lista incluí batata -- principalmente a doce -- milho, brócolis, repolho, couve flor, alho, cebola, leite e seus derivados.

Você come e deita...

... aí o ar que está no seu estômago escapa facilmente para o intestino. Principalmente se você mascar chiclete ou é fumante. A dica de ouro aqui é caminhar após as refeições. "O intestino anda com os pés. Se você ficar acamado, ele não funciona", alerta Silva Pedro. "Obesos têm mais gases por serem mais parados", diz Yamanaka.

Você não toma água várias vezes...

... então você dificulta sua digestão, possibilitando a formação de flatos. "Quem não toma pelo menos um copo de água por hora fica com as fezes mais duras, e a digestão dificultada forma mais gases", diz Yamanaka

Você ama sua cervejinha ou um refrigerante...

... pois é: eles formam gases intestinais. Para os amantes da cerveja, é principalmente o chopp e a cerveja escura os culpados por desconforto na barriga depois do happy hour. Todas as bebidas com gás devem ser evitadas por quem se queixa de excesso de flatos.

Você pode ter alguma intolerância...

... e por isso produzir mais gases. A intolerância à lactose é a incapacidade de digerir o açúcar (lactose) do leite e derivados. Há também a intolerância ao glúten -- que é diferente da doença celíaca, uma doença autoimune, segundo Silva Pedro. Quem possui a síndrome do intestino irritável também produz mais gases.

O que (e como) comer então?

É recomendável trocar a cerveja e o refrigerante por sucos. Comer mais frutas e reduzir os alimentos que provocam gases. Soja no lugar de grãos -- e leite de soja no lugar do leite. Mais vegetais e menos carnes. Substituir leite por iogurte também ajuda. E, principalmente, manter uma dieta equilibrada. "Quem está sob estresse, come rápido, come e deita, produz mais gases", diz Silva Pedro. Não fume e evite chicletes.

Pode ser sintoma de doença?

Os médicos explicam que o pum não está associado a nenhum tipo de doença. O que pode indicar algum problema são sintomas como sangramento e mudança de cor nas fezes, diarreia, emagrecimento. "Tem que observar o seguinte: o meu normal era assim. Agora não é mais, mudou. Aí, pode haver alguma coisa", diz Yamanaka.

Tem remédio?

"Eu não indico. Mando mudar alimentação", diz Yamanaka. Mas se você quer uma ajuda extra para diminuir os gases e o cheiro, pode tentar salicilato de bismuto ou uma ou duas pastilhas de carvão ativado após as refeições se você não estiver tomando outros remédios. "O carvão ativado diminui absorção de outros medicamentos", diz Silva Pedro. "Luftal tem ação só no estômago", completa o especialista.

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