Gastroenterologia enfrenta roda viva da desvalorização

Artigo Publicado na Revista da APM (Set/2013), com a participação do Dr. Marcelo Pedro, Diretor da CEDIG

Revista da APM - Setembro/2013Médicos que cuidam da saúde do aparelho digestivo são unânimes em dizer que falta reconhecimento

Por: Adriane Pancotto

Data de 1895 o primeiro periódico dedicado à Gastroenterologia, das mãos do médico alemão Izmar Isidor Boas, considerado o fundador da especialidade e que muito se dedicou a intensos estudos do aparelho digestivo (ou digestório, como usava-se antigamente). O periódico existe até hoje e é publicado com o título Digestion. No Brasil, a Gastroenterologia aparece como especialidade médica no século XIX e de lá até os dias atuais, falar dos avanços na especialidade é traçar uma extensa linha na evolução das Ciências e da Tecnologia, com ganhos inestimáveis para a qualidade de vida do paciente. Principalmente a partir da metade do século passado, a dinâmica na descoberta de tratamentos caminha emparelhada com as constantes inovações tecnológicas.

“O Brasil praticamente se equipara, hoje, a países da Europa no que diz respeito a tratamentos. Na década de 1980, quando terminei a faculdade, busquei na França a especialização que procurava, porque não havia esse know how aqui”, conta o gastroenterologista e endoscopista João Carlos Andreoli. Formado há 37 anos pela Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto, e presidente da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), ele agora se prepara para receber colegas de outros países durante a Semana Brasileira do Aparelho Digestivo (SBAP), que congrega as três grandes áreas da Gastroenterologia e é organizada pela Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD) e pela Sobed.

Porém, embora o país registre tanta evolução na Gastroenterologia, com centros de excelência e realização de importantes eventos, outros aspectos ainda precisam avançar muito: a valorização do profissional e as relações com as operadoras de planos de saúde e o poder público. “Por uma apendicectomia por videolaparoscopia, que pode durar de 30 minutos a 3 horas, dependendo do caso, normalmente as operadoras pagam R$ 400 para a equipe, 60 dias depois. É uma cirurgia aparentemente simples, mas que pode trazer complicações. Ao passo que, para o material usado, como o bisturi ultrassônico, o repasse é de R$ 2 mil. Aos olhos das operadoras, cirurgião, auxiliar e instrumentador não valem nada. É uma sensação de total descaso”, enfatiza o gastroenterologista e cirurgião do Aparelho Digestivo Marcelo da Silva Pedro, secretário do Departamento de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina (APM).

José Carlos Andreoli reforça o custo que o especialista tem, tanto na aquisição do conhecimento quanto no aperfeiçoamento de técnicas, assim como na aquisição da aparelhagem. “Lidamos com equipamentos caros. Precisamos ter pessoas capacitadas e treinadas. Gastamos com insumos. Quer dizer, temos um custo tão alto que, no final das contas, pagamos para trabalhar.” Ele pontua que nos principais centros urbanos, como São Paulo, o grande contingente de médicos acaba sendo um ponto negativo na negociação com as operadoras de planos de saúde. “Como não há saúde pública para todos, o governo repassou essa responsabilidade para as empresas, cuja finalidade é o lucro. Eles ficam entre o médico e o paciente. Continuamos na profissão pelo amor à medicina”, desabafa.

Marcelo Pedro complementa: “Atendi no SUS por dois anos. Passava por situações surreais e diárias. Ainda mais na gastro, em que precisamos de exames e equipamentos muito específicos para atender com um pouco de dignidade. Como não oferecer o mínimo para esse paciente, que já está sofrendo com sua doença? Resolvi sair.”

A Socialização da Medicina

O presidente da Sociedade de Gastroenterologia de São Paulo, Flávio Quilici, afirma ter uma visão desalentadora sobre os rumos que a área tem tomado. Para ele, as medidas que estão sendo tomadas pelo Governo Federal não sustentam o discurso de melhorias, mas exatamente o inverso. Ele diz que se espelhar em outras sociedades, como a Inglaterra, não é o ideal para um país com as características do Brasil. “Haverá a massificação do médico, com desvalorização da especialidade. Precisamos de generalista, mas os especialistas são fundamentais. Isso será um desestímulo à formação de novos e bons profissionais”, aponta.

Flávio também conta que o médico tem buscado alternativas especializando-se em várias áreas de atuação na Gastroenterologia. “Estamos sendo esmagados pela situação dos planos, recebendo R$ 35 por consulta. Por isso, o gastroenterologista não fica só na clínica e procura se especializar em cirurgia e endoscopia digestivas. A tendência é possibilitar sua melhor remuneração.”

"Somos Especialidade"

A Endoscopia, que já foi especialidade, está agora como área de atuação da Gastroenterologia, mas os médicos querem mudanças. A Sobed pleiteia a revisão da classificação, com argumentos de que é essencial ao bom profissional um longo trajeto até a prática. O futuro especialista faz um ou dois anos de Clínica Médica, dois ou três anos de Gastroenterologia e só depois vai para a Endoscopia. Dentro dela, existem ramificações, como Endoscopia Digestiva Alta Diagnóstica e Terapêutica, que geralmente é a primeira etapa, Ecoendoscopia e Enteroscopia. Costumam durar pelo menos um ano cada. Na Colonoscopia, a grade de aprendizagem é em tempo integral.

“Antigamente, tínhamos o aprendizado de fim de semana, mas não queremos médicos com experiência superficial. O título de especialista deveria ser exigido em todas as instituições que lidam com pacientes, pública ou privada, não apenas para o chefe de serviço. Trabalhamos com aparelhos detentores de muita tecnologia e, que se manuseados erroneamente, podem perfurar um órgão”, frisa João Carlos Andreoli.

A Vida Moderna Depende do Especialista

Além de hábitos de vida, ansiedade, irritação e frustração trazem consequências imediatas ao aparelho digestivo. “Comemos mal, em horários impróprios, de forma errada, alimentos inadequados, enfim, cometemos um conjunto de erros que afetam o aparelho digestivo. Além disso, estamos submetidos a estresses diários, e como o corpo responde de alguma forma, o estômago acaba sendo prejudicado com o aumento da secreção gástrica”, explica Jimi Izaques Bifi Scarparo, membro da Sobed. Ele complementa: “Infelizmente, é raro o brasileiro que procura ajuda nos primeiros sintomas. As pessoas não querem perder tempo.”

Por isso, um dos desafios dos médicos que tratam o aparelho digestivo é justamente voltar as atenções da sociedade para a importância do diagnóstico precoce. “Se a pessoa fizesse regularmente os exames de todo o aparelho digestivo, a redução dos casos de câncer, por exemplo, seria muito significativa. Na colonoscopia, investigamos a existência de pólipos que, se retirados no início, anulam a chance de evolução da doença. O intestino e o estômago permitem o tipo de procedimento, diferente de outros órgãos”, argumenta Scarparo.

Por isso, são necessárias políticas de prevenção e insistência na mudança de hábito da população. “O Japão é o país com maior índice de câncer gástrico no mundo. Assim, todos são obrigados a fazer uma endoscopia preventiva. Ainda não dá para pensar nesse cuidado aqui no Brasil, principalmente se dependermos de políticas de saúde pública. Nem mesmo quando a doença é diagnosticada é possível o tratamento mais adequado”, lamenta.

  • Dr. Marcelo da Silva Pedro

    Dr. Marcelo da
    Silva Pedro

    Cirurgião do Aparelho Digestivo

    CRM 82.387

    • Gastroenterologista / Proctologista / Cirurgia Videolaparoscópica
    • Formado pela Universidade de Alfenas, Residência pela Real Benemérita Sociedade Portuguesa de Beneficiência
    • Médico Cirurgião do Hospital Israelita Albert Einstein
    • Especialista pela Sociedade Brasileira de Videocirurgia
    • Especialista pela Sociedade Brasileira de Laser
    • Membro da Diretoria do Departamento de Gastroenterologia da Associação Paulista de Medicina
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